quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Trabalhando com homens na promoção da igualdade de género – Um passo para o Desenvolvimento

Por: Gilberto Macuácua

Produzi e apresentei esta comunicação no ambito da Conferencia Internacional sobre Desenvolvimento e Diversidade Cultural em Mocambique promovida pelo Centro dos Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane em Maputo.

Caros/as

A igualdade de género é um direito humano, um dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) e a chave para alcançar os outros sete.
Há que recordar que, Moçambique não está alheio à estes objectivos e esforços estão a ser desenvolvidos com vista ao seu alcance até 2015.
Porém, importa salientar que, os homens, enquanto líderes políticos, religiosos e comunitários, frequentemente controlam o acesso à informação, serviços financeiros, transportes e outros recursos fundamentais.

Enquanto maridos, namorados, companheiros e pais, os homens frequentemente detêm um grande poder sobre muitos aspectos da vida das mulheres incluíndo aquelas que dizem respeito à esfera da saúde sexual e reprodutiva.
Daí que, tendo os homens activamente envolvidos nos esforços que tem em vista o alcance da igualdade de género estaremos a dar “Um passo imprtante para o desenvolvimento”

Conceito de Masculinidade

Para melhor percebermos esta questão, julgo importante abordar o conceito da Masculinidade que refere-se a características socialmente construídas que são atribuídas ou se acredita serem convenientes para os indivíduos de sexo masculino. Frequentemente são contrárias as características sociais consideradas tipicamente femininas (eg. “agressivo— afectuosa”; “racional— emocionada” etc).

A masculinidade reflecte valores e normas culturais adquiridas através do processo de socialização desencadeado por diferentes agentes; interage com outras dimensões tais como classe social, raça, religião, sexualidade, idade e etnicidade; é variável e muda ao longo do tempo e espaço.
Porquê trabalhar com Homens

• Os homens são parte dos problemas de género, portanto, também devem ser parte da solução e envolvidos na eliminação de barreiras para concretização de direitos humanos de todos(as);
• Necessidade de abordar a socialização masculina, práticas nocivas de masculinidade e o alto custo que implica a nivel pessoal, inter-pessoal e na sociedade num contexto mais global incluindo o Estado;
• É importante aumentar o interesse, consciencialização, envolvimento e responsabilidade dos homens sobre as masculinidades, porque além de serem homens, são pessoas, com deveres e direitos.
• Altos índices de violência masculina contra as mulheres, pelo menos 11 000 casos declarados de violência dos quais 10 000 são de VCM no primeiro semestre de 2010 em Moçambique
• Dentre outros tantos factores
Para o sucesso destes esforços é importante aplicar-se uma abordagem ecológica onde teremos intervenções de forma integrada e focalizadas a vários níveis a partir do indivíduo — Grupos de Pares — Família — Comunidade/Sociedade — Estado.

Tês (3) Aspectos a Considerar

Os Estereotipos de Género limitam as possibilidades quer de Mulheres quer de Homens
 A igualdade de género é uma “fórmula” vencedora para homens e mulheres. E o envolvimento de homens em todas as vertentes permite não só às mulheres melhorarem as suas condições de vida, com também permite aos homens melhorar a sua;

 Os próprios rapazes e homens precisam de cada vez mais a desafiar as noções tradicionais de masculinidade que restringem a vivência saudável da sua sexualidade e que limitam a sua participação na vida dos filhos e filhas, e que os colocam a si e às parceiras em situações de risco e vulnerabilidade;

 Alguns homens gostariam de ser companheiros e pais mais envolvidos e darem maior suporte às suas famílias mas necessitam de apoio para ultrapassar preconceitos e ideias profundamente enraizadas sobre as identidades e relações de género;

 São pouquíssimos os programas e iniciativas que tentam promover um envolvimento positivo dos homens na luta pela igualdade e saúde sexual e reprodutiva, encorajando a participação conjunta em decisões relativas à contracepção, gravidez e parto, e testes voluntários do VIH/SIDA e no entanto.


A desigualdade de género trava o desenvolvimento

 Direitos iguais – políticos, económicos, sociais e culturais – são necessários para reduzir a pobreza. Os homens desempenham um papel fundamental na igualdade de género, redução da pobreza e nos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, incluindo na melhoria da saúde materno-infantil e na redução da transmissão do HIV/SIDA e da violência baseada no género;

 Eliminar o casamento prematuros, permitir a raparigas adolescentes adiarem a gravidez, eliminar a discriminação contra jovens grávidas, e providenciar suporte a mães adolescentes pode ajudar a assegurar que as raparigas completem a sua educação escolar e profissional. Isto pode ajudar a quebrar o ciclo de pobreza inter-geracional;

As atitudes e os comportamentos dos homens são críticos para os esforços de prevenção do HIV/SIDA. Os homens detêm um enorme poder nas decisões de cariz sexual, incluindo a decisão de utilizar preservativos.


O desafio para enfrentar a violência baseada no género

A violência contra a mulher, ao longo da Historia da humanidade, tem sido tratada como uma questão banal, vivida no âmbito do espaço privado. Esta abordagem, reforçada pelo constrangimento e insegurança da mulher em denunciar a violência sofrida, faz com que os factos não se tornem públicos.
A indiferença social e o escamoteamento à questão, podem ser evidenciadas nas formulações e interpretações da lei, na impunidade dos agressores bem como na falta de programa de atendimento que incluem o homem, autor da violência. Não existem ainda estudos e pesquisas em Moçambique que evidenciem os serviços para homens agressores, que permitam fornecer indicadores claros acerca do problema da violência contra as mulheres, salvo os que tem sido fornecidos pelo fórum mulher, WLSA ou outras organizações feministas mas tambem focando o problema mais do lado da mulher. Tendo como base os dados fornecidos por estas organizações fica evidente que existe a necessidade permanente de desenvolver programas de prevenção para que o ciclo de violência que os homens praticam contra as mulheres seja rompido.
A maioria dessas mulheres não desejam de forma alguma terminar a relação, mas sim, romper com o ciclo da violência, nas suas vidas. Grupos de Reflexão para homens são uma das alternativas para a aprendizagem de novos papeis sociais e a transformação das relações interpessoais e de género. Porém, estes devem ser institucionalizados.

Lições

• Para a transformação dos conceitos e práticas de masculinidade é necessário envolver os próprios homens em um processo auto-reflexivo e emancipatório;
• As mudanças nos conceitos e práticas de masculinidade resultam de um diálogo não confrontativo e negociações entre os actores envolvidos;
• Há necessidade de integrar as intervenções para transformar a masculinidade em um quadro mais abragente de intervenções pela igualdade de género;
• Transformar os conceitos e práticas de masculinidade pode conduzir a menor VCM e influenciar positivamente os factores de saúde pública e económicos

Recomendações

• Criar espaços e mecanismos educativos específicos para homens envolvidos em violência contra as mulheres;
• Envolver os homens como aliados e não apenas em uma perspectiva de culpabilização;
• Integrar as acções de engajamento masculino em um quadro de esforços pela igualdade de género mais abrangente;
• Incluir mensagens sobre os beneficios da igualdade de género nas acções educativas direcionadas para os homens
• Desenvolver acções de mobilização comunitária inclusivas e que facilitam o dialogo sobre masculinidade
• Institucionalizar os Grupos Reflexivos de homens.


Conclusão

As relações de género são incorporados na estrutura social e são o resultado de um sistema em que todos os seus elementos se relacionam entre si de formas específicas. Essas relações são afectadas pela (e afectam) factores económicos, sociais, culturais, políticas e históricas. Num sistema dinâmico, as relações de gênero mudam de acordo com todos estes factores.
O sistema legitima os princípios existentes através de seus diversos componentes e tende a perpetuar-los através de seus vários membros. As intervenções que procuram mudar as relações de gênero, visando apenas um aspecto do sistema não são susceptíveis de ser eficaz por isso,

Trabalhar com homens na promoção da igualdade de género é Um passo para o desenvolvimento

Maputo, aos, 17 de Novembro de 2010