quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Estupro colectivo em nome da tradição. Que vergonha!!

Por: Gilberto Macuácua – gilberto_mz@yahoo.com.br 

Fiquei extremamente chocado quando li um artigo intitulado “Leis que colidem com a tradição!” assinado por Pedro Nacuo na sua coluna “Dizer por Dizer” da página 13 do Jornal Noticias de Sábado, dia 14 de Janeiro de 2012.

O referido artigo, faz alusão aos ritos de iniciação no norte de moçambique e na sequência, uma história triste, de uma mulher que foi estuprada por 17 homens na cidade de Pemba, porque violou os limites ao passar por uma área supostamente proibida. Passo a citar um extrato do texto: quem ousa violar os limites tem imediatamente uma valente punição, principalmente se não for quem alguma vez passou por aquilo. Pior se for uma mulher! E mais adiante o mesmo artigo diz: Não ė que nos finais de Dezembro passado, uma mulher, aqui em pemba, violou os limites em relação ao raio proibidíssimo, diz-se por mais de uma vez? Concluiu-se que o fazia deliberadamente, sobretudo porque sendo da terra, sabe o quanto é interdito.     
É simplesmente chocante e vergonhoso!
Na minha opinião, quem violou os limites, são os 17 homens que partiram para cima daquela mulher indefesa para praticarem o estupro colectivo e todos aqueles que legitimam esta prática macabra em nome da tradição. Este facto, mostra um alto nível de egoismo, falta de escrúpulos dessas pessoas perante uma mulher que também, pode estar associado a um desconhecimento sobre os direitos humanos da mulher. Eu pergunto: se aquela mulher fosse mãe, filha, esposa, namorada ou irmã, de um daqueles homens procederiam da mesma maneira? E eles ainda dão-se ao luxo de afirmarem que a punição é mais severa quando se trata de uma mulher. Isto não é simplesmente chocante e vergonhoso?

Temos que repensar em algumas práticas tradicionais como esta por exemplo, que viola grosseiramente os direitos humanos da mulher. Podemos continuar a fazer os ritos de iniciação, prepararmos os futuros homens mas, sem ensinarmos a estes, práticas nocivas como a do estupro. Na minha opinião, é um crime que se cometeu e a legislação deve fazer-se valer neste caso, punir os que praticam o estupro. Nada no mundo justifica esta prática e como pessoas que somos, devemos decretar uma tolerância zero para estas práticas. Sem descartar a necessidade de um trabalho de sensibilização que consistiria em, os homens participarem de um processo auto-reflexivo sobre as masculinidades o que lhe permitirá reconhecer o lado bom e o lado mau das práticas tradicionais.

Infelizmente, não existem dados estastísticos sobre este tipo de violação. Este caso veio a público mas, quantos ficam escondidos? Se tomarmos em conta uma das passagens do mesmo texto do Pedro Nacuo que diz: A policia prendeu os supostos autores materiais do crime, mas a corporação é composta por homens, alguns deles que bem sabem de que se trata e o líder espiritual mandou recados para quem ousasse mexer nos seus “soldados”.

Nenhuma mulher se entrega ao estupro. Já pararam para pensar como se sente aquela mulher hoje? Numa altura que se fala muito sobre a promoção da auto-estima das e dos moçambicanas/os, uns lutam para destruir a da mulher. E mais, será que aqueles homens usaram as camisinhas?...