domingo, 15 de janeiro de 2012

Mano! Estou a dizer-te. Ela só será minha mulher de verdade, no dia que me der um filho


“ Mano! Estou a dizer-te. Ela só será minha mulher de verdade, no dia que me der um filho”

Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011, por volta das 19 horas, estava sentado num dos cafés no centro da  cidade de Chimoio a tomar o meu cafezinho, depois de uma longa e bela jornada de trabalho. Ao lado da mesa onde eu me encontrava sentado, estava uma outra onde, dois jovens conversavam sobre a vida.

A dado momento, o jovem que aparentava ter por aí, 25 anos de idade, disse ao amigo que não estava feliz, porque casou-se a três anos e a mulher não estava ainda capaz de lhe dar um filho que ele tanto desejava. Disse ainda que, sofria uma pressão familiar sobretudo por parte da mãe dele que insistentemente dizia que ele devia procurar uma outra mulher uma vez que, a actual não serve, pela mesma razão.

O amigo com que ele conversava e que  aparentava ter também a mesma idade, disse que concordava com a mãe do amigo e  mais, que,  um homem sem filho principalmente quando tem mulher, não é ainda um homem completo.

Eu estava ouvindo com muita atenção a conversa dos dois amigos, afinal, estes temas interessam-me muito.
O visado acabou soltando o seguinte e batendo bem forte na mesa com punho direito: “ Mano! Estou a dizer-te. Ela só será minha mulher de verdade, no dia que me der um filho”.

Estas palavras, chamaram mais a minha atenção e aumentaram o meu nível de preocupação porque vejo por um lado, dois homens e uma mãe que não tem noção do que estão falando, refiro-me em relação aos direitos humanos e por outro lado, a tal mulher que supostamente não consegue gerar um filho, o que ela estará a viver nestes três anos.

Continuei me questionando: Porquê esta mãe sugere ao filho esta ideia? Será que, ela está ciente de que a nora dela é um ser humano como ela? Por que ela não aventa a possibilidade de ser o filho que tem o problema de infertilidade e não a nora? E este jovem homem! Porquê não  olha a mulher que tem, como um ser humano como ele? Porquê este jovem homem afirmou aquelas palavras que estão no título deste texto que infelizmente está a retratar um facto real? Enfim, estas e outras tantas perguntas que eu me fiz no momento.

A sociedade moçambicana está num grande dilema em que, produziu normas sociais que algumas delas, no lugar de ajudarem apenas prejudicam, como este caso por exemplo, que esta mesma sociedade normalizou que, um homem deve ter um filho para ser considerado homem de verdade.

Ora bem! Este, quando não pode ter um filho acha que a sua masculinidade fica reduzida ou então, fica incompleta, idem para a sociedade, família, amigos e outros círculos sociais com quem este homem se relaciona. Daí a pressão da mãe deste jovem que por sua vez está sendo pressionada pela sociedade, amigos, etc.

Sendo este homem, alguém que nas relações de género possui maior poder comparativamente a uma mulher e por outro lado, sendo que, esta mesma sociedade, procura proteger o homem e culpar muitas vezes a mulher quando um casal não tem filhos. Na sequência, o homem aproveita-se desta situação para tomar medidas que lhes são convenientes e sem pensar até que ponto a mulher pode ficar ou fica prejudicada com a tal medida.

A esta altura, aquela mulher, deve ter passado já para o estatuto de ex-mulher ou continua aquela que não é de verdade segundo ele, ou então outra sorte que não fosse a que sonhava deve ter abraçado a ela. Eu, espero que algo diferente do que estou a pensar tenha acontecido.

É mais um caso para dizer que precisamos de desconstruir as actuais normas de género e construirmos outras que serão para o bem de todas e todos.

Por: Gilberto Macuácua