segunda-feira, 11 de junho de 2012

Pacientei e agora chega!


“Duas horas para buscar água?... Isso só pode ser um abuso de confiança..”.

Em Dezembro de 2011, fui de férias à província de Gaza, concretamente no distrito de Guijá.
O meu tio, que la reside, decidiu apresentar-me alguns amigos com que ele convive e dentre eles fomos a casa do senhor Z. Mandlate.

Este, estava visivelmente transtornado porque a mulher tinha saido a cerca de 2 horas a busca de água potável.
- Hey irmão, entra e seja bem vindo....
- Este é meu sobrinho, vem de Maputo ....
- Ok. Prazer meu filho. Só que, infelizmente estás a vir num dia muito difícil. Não posso vos servir nada para comer, minha esposa desde que saiu por volta das 11:30h, veja que agora são quase 13:30h e não voltou ainda....
- Para onde ela foi?
- Buscar água, mas pora! Duas horas para buscar água?... Isso só pode ser um abuso de confiança... Ela vai ter que me explicar bem essa história quando chegar. Está cada dia pior, ontem e antes de ontem foi a mesma coisa. Pacientei e agora chega! Ela vai me conhecer bem hoje.

Fiquei espantado quando o meu tio, concordou com o amigo que por sua vez, sugeriu que o amigo a castigasse pelo facto dela estar a demorar chegar a casa.

As atitudes destes 2 homens remetem-me ao seguinte:
Alguns dos papeis socialmente construidos que definem o que é ser um homem e o que é ser uma mulher no nosso país influenciam para práticas negativas como é o caso da violência e este exemplo, mostra que a mulher é a maior vítima. Muitos homens, sentem-se no direito castigar uma mulher quando na óptica deles, faz algo de errado como neste caso concreto, o tempo que ela demorou buscando água. Infelizmente, a grande parte da sociedade pensa da mesma maneira seja homens ou mulheres, isso faz com que a mesma de certa forma “legitime” estes actos vergonhosos praticados por homens contras as mulheres. E o facto da tarefa de ir buscar água naquela comunidade ser exclusivamente da mulher, os homens não sabem quais são contornos para se conseguir um balde água para casa e quando se verifica uma demora acham que ela não está a cumprir devidamente com a tarefa, o que culmina muitas vezes com castigo.

Em conversa com alguns residentes, percebi que antes, as mulheres buscavam água muito perto o que tornava reduzido o seu tempo de ausência em casa. Porém,  devido as mudanças climáticas, as fontes estão a secar e as mulheres tem de percorrer grandes distâncias para buscar água potável e os maridos não sabem do problema e pelos vistos o meu tio e o amigo nunca procurarm saber também. O facto que, é as mudanças climáticas estão a influenciar para a escassez de água e consequentemente a ter  efeitos negativos na vida de homens e mulheres. Passeando um pouco pela vila, foi possivel assistir a esta triste realidade onde é notável que esta crise, recai mais nas mulheres que são elas que caminham longas distâncias a busca de água e algumas vezes com crianças nas costas, debaixo de sol internso para o no final, serem penalizadas pelos maridos por causa da demora.

Com este facto concluo que, existe uma relação muito íntima entre as mudanças climáticas e o género.

Na minha opinião, é necessário que todas as estruturas de liderança deste país estejam a ocorrente dos efeitos das mudanças climáticas e saibam até que ponto afectam as relações de género e desta forma, procurarem mecanismos de minimizar o problema que deixado como está, pode aumentar o sofrimento das moçambicanas e dos moçambicanos.

Por: Gilberto Macuácua