sexta-feira, 27 de julho de 2012

“Fiz as limpezas no meu quintal e agora estou em problemas!”


Por: Gilberto Macuácua

Tarde de Agosto de 2011, estava eu em Cidade de Nampula, norte de Moçambique com intuito de moderar uma palestra sobre “Masculidades e Violência”.
Numa sala replecta de homens e mulheres, na sua maioria jovens estudantes. Nos primeiros minutos do debate, os participantes relatavam e comentavam experiências relacionadas com as masculinidades e violência que acontecem naquela província de uma forma geral. Porém, Amisse Jr. quebrou essa tendência, quando pediu a palavra, falou da sua própria experiência tendo começado pronunciando as seguintes palavras:

- Fiz as limpezas no meu quintal e agora estou em problemas!

Amisse, 32 anos de idade e 9 de casado, contou a todos os presentes na palestra que, era um telespectador assíduo do programa Homem que é Homem transmitido pela Televisão de Moçambique. Este programa aborda dentre vários problemas, as masculinidade e sua relação com a violência, numa abordagem de homem para homem. Ele disse que aprendeu neste programa, que era bom um homem engajar-se em tarefas domésticas.

Ele, decidiu implementar algumas mudanças na sua relação com a parceira que, uma vez que, percebera que ela ficava sobrecarregada com as tarefas domésticas e que, por outro lado, ficou sensibilizado com alguns depoimentos de homens na televisão, que tem já implementado esta prática nas suas vidas.

O Amisse contou de forma resumida o que acontecera. O depoimento dele chamou-me à atenção, o que levou-me a propor-lhe uma conversa a dois logo que terminou a palestra. Quando sentamos mais tarde num dos cafés da cidade, ele contou-me o sucedido com mais detalhes. A conversa foi muito aberta e franca como se nos conhecêssemos já a algum tempo.

Ele disse que, acordou de manhã e teve uma ideia fazer algo para agradar a mulher que seria uma surpresa. Pegou em ancinho e começou a fazer a limpeza do seu quintal. A esposa viu e reagiu imediatamente, dizendo: - Amisse, estás a fazer o quê? Queres me colocar em problemas com a tua mãe? Desde quando você pega em ancinho p’ra varrer aqui em casa? Etc. Ele: - Não meu amor, nós homens, podemos varrer o quintal e quanto a mamã, não te preocupes que eu falarei com ela e vai entender.

O Amisse, passou a fazer as limpezas no seu quintal, mesmo sem o consentimento total da esposa e segundo ele, ganhou o gosto de realizar esta tarefa e passou inclusive a engomar as roupas que era lavada pela esposa. Disse ainda que, descobriu um dom que estava escondido dentro de si e aquelas actividades o deixavam muito bem-disposto para enfrentar o dia como se de uma terapia se tratasse e a esposa, começou a habituar-se com a ideia porém, com algumas reservas.

Uma semana antes da palestra
Era final da tarde, quando a mãe do Amisse chegou a casa do casal para visitar e passar o final de semana. No dia seguinte, o Amisse acordou e como habitual, foi as limpezas e a reacção da mãe não tardou. Esta, foi a cozinha onde a nora dela encontrava-se a preparar o pequeno-almoço e chegou já falando: - Estás doente? - Não mamã. – Então porque o Amisse está a varrer o quintal? Afinal, quem é mulher de quem aqui? A esposa do Amisse tentou em vão, dar as explicações à sogra que se exaltava cada vez mais, até que o Amisse se apercebeu do barrulho e se aproximou das duas e quando chegou, a esposa foi desesperadamente perguntando ao marido: - É esta a armadilha que estavas a preparar para mim Amisse? Já conseguiste colocar a tua mãe contra mim… Ele por sua vez, entrou na discussão posicionando-se contra a mãe. A discussão passou a ser triangular e até a data da realização da palestra não se tinha resolvido e foi por isso que, ele decidiu pedir ajuda publicamente. Depois da nossa conversa, o Amisse disse que se sentia bem aliviado e confiante de que o diferendo triangular iria se resolver.

Este problema remete-me ao seguinte: as expectativas da sociedade em relação aos papeis de homens e mulheres tem sido acompanhadas por elevados custos penalizadores tanto para os homens assim como para as mulheres. A sociedade pouco tem reflectido sobre estes custos se usarmos o exemplo da família de Amisse, esta procurou em nome da tradição/cultura reforçar e reproduzir esses papéis de forma quase que cega.

Não cabe somente ao Amisse, a esposa ou mesmo a mãe dele reflectirem sobre os papéis atribuídos aos homens e as mulheres pela sociedade para perceberem até que ponto estes reforçam as desigualdades, até que ponto esta forma de ser e de estar dos homens e das mulheres tem sido benéfica e ou nociva a eles e a elas, mas sim, cabe à toda a sociedade moçambicana a todos os níveis.

É importante também, que a sociedade perceba que os papéis por ela construídos que moldam os homens e as mulheres são possíveis de serem desconstruídos e a partir daí, podem-se construir novos homens e mulheres que pensam e agem de forma mais igualitária no que respeit aos direitos humanos.

Saudações
Gilberto Macuácua